backpacking in EuropeMochilar pode parecer tão simples quanto colocar uma mochila nas costas, pegar um avião, ônibus ou trem e ir… e realmente é, basta ter um dinheirinho no bolso e a vontade de aventurar-se. Como disse o fundador da Lonely Planet, Tony Wheeler, na introdução do seu primeiro guia de viagens, Across Ásia on the Cheap, “tudo o que você tem a fazer é decidir ir, e a parte mais difícil já está resolvida. Então vá!”.

Quando fiz a minha primeira viagem de mochilão pela Europa (foto), há quatro anos, fiquei dias lendo sites de dicas na internet, planejando roteiros, reservando albergues, vendo os dias grátis de museus. Pois bem, foi só eu chegar a Madrid que tudo foi esquecido e eu passei a viver um dia de cada vez: mudei os albergues, estiquei a minha estada em Amsterdam, diminui o tempo em Paris, visitei menos museus e passei mais tempo com os locais. Hoje, quando olho para trás, vejo que deixei de visitar diversos lugares que gostaria simplesmente por desorganização, mas sei também que, caso tivesse seguido todo o roteiro que preparei, minha viagem teria sido um saco, como aquelas excursões da CVC organizadas para velhinhos.

Lonely PlanetA minha sugestão então é, leia as dicas, mas não se prenda muito nisso. Elas serão muito úteis, mas cada um vai selecionar aquelas que têm mais a ver com o seu estilo de viagem. Eu vou começar pela mais básica de todas: compre um guia de viagens. Na minha humilde opinião, os da Lonely Planet são os melhores, mas os da Frommers também são muito bons, apenas não tão voltados para os mochileiros. Nestes guias você vai encontrar mapas, dicas de albergues, restaurantes, museus, boates e atrações, além de diversas referências históricas do lugar. Nesta minha viagem pela Europa, devo confessar que abri o guia poucas vezes, já que acabava pedindo as dicas dos locais e outros viajantes, mas sempre que precisei da sua ajuda, ele estava lá. Para ajudar na sua escolha, leia o post “Com que guia de viagem eu vou” aqui no Sem Destino.

Quanto ao destino, devo dizer que não sou muito a favor de conhecer diversos lugares em uma única viagem. Fiquei dois meses e meio na Europa, poderia ter conhecido sei lá quantas cidades, mas não troco por nada os meus dias relaxados na praia em Barcelona com os amigos que fiz por lá. Ainda me correspondo com eles e duas amigas minhas da Eslovênia já vieram me visitar. Acho difícil você criar este tipo de amizade se está pulando de um lugar para outro, além de não conhecer realmente a cidade e gastar muito tempo em ônibus, trem ou avião.

Locomoção – Definido o destino, é hora de pensar em meio de transporte. Para se deslocar dentro da Europa, uma das opções são as companhias aéreas low cost. Entre no site flylowcostairlines.org ou Skyscanner.net e pesquise os melhores preços. Talvez você até troque sua ida à Roma por uma viagem à Moscou por causa de uma promoção. Para dar uma idéia, meu irmão acaba de comprar para o ano que vem uma passagem Amsterdam / Berlim / Budapeste / Florença / Amsterdam por 250 Euros… em alta temporada. Uma passagem Amsterdam / Praga / Amsterdam está saindo por 100 Euros. Para vôos dentro dos EUA, tente o site da e.dreams e muitos outros, pesquise. Quando estiver organizando o itinerário dos vôos, aproveite para dar uma passadinha no site Frekfly, que oferece informações práticas sobre os aeroportos. Basta você colocar o aeroporto de saída e de chegada para saber o clima, a moeda local (e a taxa de conversão entre a moeda dos dois países), onde comer e se hospedar nas proximidades, além de fotos, depoimentos dos visitantes e a localização no GoooooogleMaps.

train stationOutra opção é fazer toda a viagem de trem, o que pode ser até parecer mais caro, mais demorado, mas nem sempre é. Confesso que gosto muito de viajar de trem – você pode ver os lugares por onde passa e conhece pessoas a bordo. O lado ruim é que as viagens podem levar algum tempo. De Madrid até Amsterdam, por exemplo, foi quase um dia inteiro. Para este tipo de viagem, você pode escolher um passe que cubra três países, quatro ou cindo países (que têm que ser fronteiriços) e uma combinação de dias e número de viagens. Os preços começam em 207 Euros para jovens abaixo de 25 anos, 270 Euros para adultos em grupos e 315 Euros para adultos sozinhos. Entre no site da Eurail e veja as possibilidades. E aqui vai uma pequena advertência, o Eurail não pode ser comprado na Europa. Você tem que comprá-lo antes de sair do Brasil. Nos Estados Unidos os trens também são uma excelente opção. Se você está em, digamos, Nova York, e quiser ir para Washington vai gastar uns US$130,00 em um dos trens da Amtrak.

Mas e aí, qual deles é melhor? Depende, as passagens de avião podem ser mais baratas, mas geralmente os vôos são para aeroportos longe da cidade, você gasta um tempão com check-in e tal e acaba, dependendo do vôo, se tem conexões, se desgastando muito mais. Lembre-se que em uma viagem de trem noturna você estará dormindo em uma cabine, descansado, além de economizar o dinheiro do albergue. Bom, há os ônibus também, bem mais baratos que os trens, porém mais lentos e menos confortáveis.

tramJá que estamos falando de locomoção nesta parte, vamos esgotar logo o assunto antes de passarmos para o próximo tópico. Quando você estiver dentro de uma cidade, nada de táxi. A maioria das cidades européias e americanas tem um excelente sistema de metrôs e ônibus, então por que você vai gastar o seu rico dinheirinho com essa bobagem? Apenas preste atenção na forma de pagamento. Em algumas cidades, não há roletas no metrô ou nos ônibus, ninguém te cobra nada, mas você tem que pagar mesmo assim, porque se o fiscal te pega sem o bilhete na mão, a multa é pesada. E não adianta falar com cara de bobo e sotaque de brasileiro que você não sabia… desconhecer as leis não é desculpa para não cumprí-las. Se não for muito – e eu me refiro aí a mais de 20 quarteirões – vá a pé. Não há melhor maneira de se conhecer uma cidade do que andando.

london undergroundPara ajudar na sua locomoção, pegue um dos muitos mapas disponíveis nos albergues, estações de metrô e guichês de informações ao turista (sim, eles têm isso por lá). Geralmente no começo parece impossível decifrar o mapa do metrô de Paris ou Londres, ou mesmo saber onde você está, mas depois que você aprende o macete da triangulação de ruas, fica tudo mais fácil.

A mochila – lembre-se que a sua mochila, para o bem ou para o mal, será a sua companheira inseparável de viagem. Nela você terá tudo o que precisa, mas qualquer coisa supérflua que colocar lá dentro vai acarretar em um peso extra que, após um dia inteiro de viagem, em um metrô lotado em Nova York, podem realmente te deixar estressado, ou pior, com uma baita dor nas costas.

Uma mochila de 75 litros é mais do que suficiente. Leve também uma outra, pequena, para usar no dia-a-dia. Quando for comprar a mochila, teste ela nas suas costas e veja se encaixa direito. Não é uma boa idéia levar nada de muito valor, já que você vai se hospedar em albergues e, por mais que nesses lugares eles disponibilizem um pequeno armário, nada garante que ele vai estar intacto quando você voltar do seu passeio até o Louvre. Já o dinheiro, os cartões e os documentos devem ficar o tempo todo com você, em uma daquelas pochetes que ficam junto ao corpo. Nada de deixar na mochila.

Vamos a uma pequena lista do que levar:

Despertador – porque você vai precisar acordar para horários de avião ou trens, ou para não perder o café da manhã do albergue, ou mesmo no trem, para não perder a estação.

Lençóis – alguns albergues cobram extra por eles ou, dependendo em que mafuá você for se enfiar, eles podem estar sujos, sei lá. Muitas pessoas recomendam levar, eu não levei e não tive problemas.

Lanterna – você vai entrar no quarto escuro, vindo de alguma boite, e não vai querer acender a luz e acordar seus companheiros de quarto, né?

Higiene – não preciso nem falar em escova e pasta de dentes. Lembre-se também que albergues não são hotéis e não terão shampoo e sabonetes esperando por vocês. Levem seus artigos de higiene básico. Leve também os medicamentos básicos que toma para problemas simples. Você não vai conseguir explicar o que é uma aspirina em Moscou, ou que precisa de um antiácido em Praga.

Garfo, faca, colher – para você comprar uma comida na rua e comer no albergue, ou fazer um piquenique no parque.

Caderno
– para escrever o telefone e email dos amigos que fizer, além de dicas de lugares para ir e qualquer outra coisa que você achar interessante.

Cadeado – para trancar as malas e fechar os armários nos albergues.

Documentos – não preciso dizer passagens, passaporte, eurail, reservas de albergues impressas. É bom tirar também a carteirinha de estudante internacional, não só pelos descontos, mas porque alguns albergues a exigem. Verifique também a exigência de vacinação em alguns países. Com esse surto de febre amarela, é capaz de mais países exigirem isso.

Eletrônicos – máquina fotográfica e MP3 player. Se o seu cartão de memória ficar cheio, há muitos lugares onde você pode passar tudo para CD. Mas não esqueça de pedir para checar o CD antes de sair, pois foi exatamente assim que eu perdi quase todas as minhas fotos da Europa.

mapLivros – Guia de viagem e, se você vai fazer muitas viagens de trem, talvez alguma coisa para ler nesses deslocamentos. Resista à idéia de levar livros para ler na viagem, geralmente eles voltam sem que você tenha lido uma única página, além de serem um grande peso na mochila.

Roupas – aí o negócio é mais complicado, porque depende muito do lugar para onde você vai, do clima, da sua personalidade e tal. O mais importante é você não se empolgar, pensar em roupas versáteis, leves, que sirvam tanto para o dia quanto para a noite. Uma boa idéias são as calças que viram bermuda. Pense menos na aparência e mais na utilidade das roupas, afinal você é um mochileiro. Outra dica é que os sapatos podem ser amarrados do lado de fora da mochila para ocupar menos espaço.

Você também pode levar umas camisas do Brasil, dessas baratinhas de camelô, para servir de moeda de troca ou para agradar algum amigo novo.

Hospedagem – se você é um mochileiro, você vai para um albergue. Há opções de hotéis baratos tanto nos EUA como na Europa, mas qual é a graça? Em um albergue você conhece pessoas de todos os países, descobre o que fazer, encontra companhia para passear pela cidade. Existem diversos sites onde você pode pesquisar albergues em todo o mundo, como o Hostel Bookers, o Hostel World, o Hostels of Europe e a Hosteling International, conhecida aqui no Brasil como albergues da juventude.

E como você vai escolher o seu albergue? É difícil se você não conhece a cidade saber se vai estar em uma boa localização. Complicado também é saber se o albergue realmente oferece aquilo que está sendo divulgado no site. Em Madrid, os banheiros do albergue que escolhi não tinham chuveiro, apenas uma banheira meio suja. Já em Paris, todo dia os caras vinham e recolhiam as camas onde eu e meu irmão estávamos dormindo exatamente às 8 horas da manhã (até hoje isso é um mistério para mim). Para tentar saber mais sobre o albergue, tente reservar diretamente com eles. Mande um email cheio de perguntas, ou melhor ainda, ligue e veja como é o atendimento (pelo Skype, claro, para não gastar uma fortuna). Geralmente, pelo atendimento você já pode sentir mais ou menos o que te espera.

Se você tem um orçamento apertado ou quer conhecer melhor a cultura dos países que vai visitar, aí a opção é ficar na casa de alguém por lá. Você pode até achar estranho se hospedar com uma pessoa que nunca viu antes, mas são cada vez mais comuns os sites de relacionamento no estilo do Orkut onde as pessoas se oferecem para receber viajantes em suas casas. Você vai lá, faz o seu perfil, começa a criar uma rede de amizades e, quando for planejar a sua viagem, simplesmente começa a procurar pessoas que combinem com você nos países que vai visitar. Os sites Couch Surfing e Hospitality Club são os mais conhecidos, mas há outros. Para saber mais sobre isso, leia o post “Surfando os sofás do mundo” no meu blog Sem Destino.

Carteiras de descontos – Algumas carteirinhas oferecem descontos em albergues, passes de trem, museus, teatros, restaurantes, etc. A mais conhecida é a Carteira Internacional de Estudantes, a mesma que temos aqui no Brasil. A Carteira do Alberguista oferece desconto em hospedagem em diversos albergues. Já a Carteira do Jovem é para aqueles que já não são mais estudantes, mas ainda não passaram dos 25 anos.

Alimentação – Isso vai depender do seu orçamento, mas se ele estiver apertado (como o da maioria dos mochileiros), tente escolher um albergue que ofereça café da manhã. Alguns albergues maiores, inclusive, não se incomodam se você fizer um sanduíche extra e colocar na mochila. A maioria possui também uma cozinha onde você pode preparar a sua própria refeição, fique ligado apenas nas regras em relação à geladeira. Compre uma garrafa d´água em um supermercado, longe dos locais turísticos. Digo isso porque a minha falta de programação me fez comprar uma bem em baixo da Torre Eiffel, pela bagatela de 5 euros.

Se você fuma, lembre-se que os cigarros na Europa e nos Estados Unidos são absurdamente caros, e que você está autorizado a levar até dois pacotes do Brasil.

Bom, dicas não faltam, mas acho que as principais estão aí. O resto é com vocês. Como falei no começo, não se prenda tanto no planejamento. Chegando lá, vai tudo mudar mesmo. Se você tiver um roteiro prevendo uma visita ao Van Gogh Museum no primeiro dia, vai encontrar um grupo de australianos no albergue e acabar em algum bar do Red Light District. E se tudo der errado e você estiver em Madri, sem dinheiro, dormindo no banco de uma praça as 7 da manhã esperando o seu vôo que só sai à meia noite (como aconteceu comigo), lembre-se que isso será uma excelente história para contar aos amigos quando você voltar para casa.

PS.:
Se você vai mochilar pelo Brasil e passar pelo Rio de Janeiro, leia o meu post “De Mochilão no Rio de Janeiro” e a “Lista de albergues do Rio de Janeiro”, que embora esteja um pouco desorganizada, é a mais completa da internet. Para quem escolheu São Paulo como destino, leia a “Lista de albergues e hotéis baratos em São Paulo“.

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