Pedro Serra

Lago no alto da trilhaUma viagem a Tiradentes vale por muitas. Conhecida por ser uma das cidades mais preservadas em sua arquitetura histórica, suas casa antigas e igrejas banhadas a ouro atraem turistas de todo o Brasil, ávidos por conhecer o lugar onde morou Joaquim José da Silva Xavier, personagem da Inconfidência Mineira que dá nome à cidade. Mas esta é só uma das muitas atrações do lugar.

Uma das cidades mais importantes da Estrada Real, por onde era escoada toda a produção de metais e pedras preciosas do Brasil colônia, Tiradentes oferece trilhas, cachoeiras, piscinas termais, visitas à cavernas, rapel, passeios à cavalo, tudo isso sempre remetendo o visitante a um passado histórico.

 

Para os que não têm o espírito aventureiro e preferem o aconchego de um bom restaurante, Tiradentes é um conhecido póloMaria Fumaça gastronômico com excelentes restaurantes, da comida mineira, claro, a “artealquimia” do Theatro da Villa, adepto do movimento slow food. O restaurante funciona em um anfiteatro e, se a comida demora, os shows musicais compensam. Impossível não citar também o Aluarte e sua “cozinha criativa”. O restaurante conta com um ofurô para os visitantes, que, mediante reserva, podem ser servidos ao mesmo tempo em que relaxam na água quente.

Com tanta coisa para fazer, pode ser difícil conseguir um tempo para visitar a vizinha São João del Rei, onde Tiradente realmente nasceu, mas vale a pena. Seu centro histórico guarda igrejas igualmente belas, inclusive uma com fachada esculpida por Aleijadinho. Mas talvez o melhor esteja na viagem, feita pela famosa Maria Fumaça que liga as duas cidades desde 1881, e que com seu apito alto e agudo a todo instante nos chama para um retorno ao passado.

 


 

 

2-marco-zero.jpgVamos às trilhas então… A principal da região começa no marco zero, ponto onde os escravos se reuniam para pegar a carga que iriam levar até Paraty, no Rio de Janeiro, para depois ser embarcada até Portugal. Minha aventura, porém, começou um pouco antes disso. Às sete da manhã fui chamado no hotel pela empresa que contratei para me guiar nas minhas andanças pela região. Estava animado, pois o nome da empresa - Jeep Tours - e seu logo - o desenho de um Jeep subindo uma rocha com valentia - deixaram a impressão de que aquele seria o meu meio de transporte. A minha decepção não poderia ter sido maior ao ver um Santana Quantum comum, cansado de rodar nas estradas de terra e paralelepípedo da cidade. Nada que estragasse meu dia, mas me senti como uma criança sem o presente de natal.

03-subida.jpgFinalmente no marco zero após sacudir por uma meia hora, decepcionado, dentro do Santana, começamos a subir a trilha. Nosso falante e bem-humorado guia nos contava sobre o trajeto que iríamos percorrer - umas quatro horas no total, sendo apenas os 15 primeiros minutos de subida entre as rochas - e explicava um pouco sobre a história do local - o Rio das Mortes, visível por boa parte do início da trilha, ganhou este nome devido ao derramamento de sangue causado pela Guerra dos Emboabas. Enquanto subíamos, ao fundo ouvia-se o apito da Maria Fumaça.

 

04-lago.jpgChegando ao final da subida, a recompensa. Além da vista deslumbrante, um pequeno lago de água gelada nos aguardava para um mergulho, o primeiro de muitos que daríamos durante nosso passeio pelas trilhas de Tiradentes. Logo ao lado, por todo o chão podiam-se encontrar cristais, como estes que vendem em lojas esotéricas, perfeitos, como se tivessem sido lapidados pelo homem. Devo ter ficado uma meia hora andando curvado pela trilha, impressionado com a capacidade da natureza de criar algo tão impressionantemente belo. Recolhi dezenas deles, mas logo senti que o lugar deles era ali mesmo e escolhi o menor de todos para trazer comigo. Apenas um pequeno souvenir do local. Mais do que suficiente para que, do meu apartamento no meio de Copacabana, eu me lembre todos os dias daquele lugar mágico.

05-calcada-dos-escravos.jpgDois pontos históricos da trilha me fizeram pensar em como deveria ser viver na época da exploração do ouro em Tiradentes, com milhares de escravos garimpando de um lado e outros tantos trabalhando como burros de carga, transportando o metal até Paraty. Tanto o muro quanto a calçada construída por eles são passagem obrigatória e merecem muito mais do que um olhar desinteressado. Merecem um momento de reflexão.

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Cachoeira no alto da trilha dos escravos

Logo depois deste momento-reflexão, mais cachoeiras. Apesar da água gelada, é impossível não mergulhar, até pelo cansaço e suor provocados pela andança na trilha. Nosso guia, que deveria estar acostumado, por duas vezes ficou apenas observando enquanto os cariocas se esbaldavam. Ele não ac

reditou quando eu afirmei que a água do mar nas praias do Rio às vezes chegam a ficar tão frias quanto lá. Enquanto ele achava que éramos malucos, eu recuperava as energias para o restante da trilha que nos levaria de volta a cidade.

Durante todo o percurso vi marcas de pneus de moto, e cheguei a ouvir os motores ao longe. Para quem prefere fazer trilhas motorizado, o lugar é perfeito, cheio de passagens, subidas e descidas íngremes. Fiquei tentado a, um dia, fazer o percurso em duas rodas. A ver.

Voltamos para a pousada exaustos, mas já pensando na aventura que nos esperava no dia seguinte: explorar uma caverna e fazer rapel.

08-casa-de-pedra.jpgA gruta da Casa de Pedra fica entre Tiradentes e São João del Rei e, por 20 reais, o visitante tem direito a um tour guiado pela gruta, além de descer de rapel uma das rochas do local, de aproximadamente 10 metros. Para um iniciante como eu, a altura estava mais do que suficiente. Fizemos primeiro o tour pela caverna, onde já estiveram Dom Pedro II e Olavo Bilac, cujo texto sobre o local ilustra o panfleto de apresentação entregue aos visitantes. Devidamente paramentado com meu capacete com lamparina movida a óleo, iniciei, ao som dos morcegos, meu passeio pelos escuros corredores e salões da caverna. O guia, além das informações históricas e geológicas, nos deixou bem informados sobre todos os “causos” do lugar. O alerta para não tocar em nada, que era dado ao fim de cada explicação, tinha dois motivos. O primeiro era não destruir as formações geológicas que levam centenas de anos para se formar. O segundo, não se sujar com o cocô dos morcegos, que está por toda a parte.

Todos aguardavam o final do passeio com ansiedade. Alguns pareciam claustrofóbicos, outros, pouco interessados nas explicações geológicas e “causos” contados por nosso guia, as meninas pareciam ter ficado incomodadas com os alertas sobre o cocô de morcego. Para mim, o motivo era outro: finalmente iria estrear no rapel.

Rapel na Casa de Pedra

Para chegar ao alto da rocha de onde faríamos a descida, tínhamos que fazer uma pequena trilha, onde enormes urubus rugiam como leões para nós. Um pouco ameaçador, mesmo para um flamenguista como eu. Mas, passando esta parte, o resto foi só adrenalina e alegria. Descer, mesmo que de uma altura não muito elevada, foi emocionante. Logo ao chegar ao chão, já queria fazer de novo. Fiquei sabendo que em São João Del Rei havia um mais alto, de uns 30 ou 40 metros, e já queria ir para lá. Infelizmente nossa estadia na cidade já estava chegando ao fim e o longo caminho de volta para o Rio de Janeiro nos aguardava. Espero voltar à cidade em breve, da próxima vez, pilotando a minha moto. Todo ano, em julho, acontece a Tiradentes Bike Fest, um festival de motos clássicas. Ano que vem, estarei lá.

 

Dicas de hospedagem, atrações, restaurantes:

Guia Tiradentes

Guia Quatro Rodas